Assim como ninguém sabe quando e como vai acabar a praga desse vírus no planeta, ninguém pode saber o que será o mundo depois que ele for embora. Isso é, se ele um dia aceitar ir embora. Quantas cepas ainda se multiplicarão por aí? Que países vão entrar em colapso, como entrou agora a Turquia? Quantas milícias vão ainda se formar, como estas que, na Alemanha, usam armas de fogo para impedir o isolamento social? Quantos seres humanos ainda morrerão, vítimas do coronavírus? Quem serão?

Nem sempre depois da tempestade vem a bonança, como estamos acostumados a acreditar graças ao nosso atávico romantismo e à fé cristã de nossos antepassados desde muito antes do Cristo. Depois da tempestade, isso sim, vem sempre a esperança. E se ela vem depois, é porque já estava de algum modo por lá, em pedacinhos disfarçados por trás do desastre.

A pandemia da Covid não é o fim da História. Ela tem mais a cara de ser assim como um teste (reconheço que um pouco violento demais) para a entrada da Humanidade no ringue de seu terceiro e decisivo encontro para a formação de uma civilização viável. No primeiro encontro, antiquíssimo, aprendemos a reconhecer a nós mesmos no Outro, descobrimos nossas muitas virtudes para viver nesse planeta, nossa inteligência original e criadora, nossa capacidade de abstração para o bem e para o mal. Éramos muitos, mas aprendemos que não éramos como nenhum outro bicho ou planta. E era melhor mesmo não ser.

Quando achamos que, embora meros hóspedes, podíamos nos tornar senhores do mundo, achamos também que seríamos mais fortes se vivêssemos juntos e organizados. Para isso, foi preciso criar regras e modos de viver incontornáveis, que nos permitissem existir e fazer parte de tudo, como as montanhas, as ondas e o ar. Inventamos a sociedade. O mundo estaria a nosso serviço e não teríamos que lhe dar nada em troca, além de sua própria destruição. As coisas que existem nele deviam ficar a nosso serviço, para atender aos nossos desejos, mesmo os mais inexplicáveis.

Em certo momento do passado, garantimos nossa existência sacrificando outros animais. Em seguida, criamos a sofisticação da agricultura, tiramos da terra o que era dela. Depois bolamos uma revolução que, com inveja de Deus, inventa máquinas de tudo que nos faz bem, que nos dá o conforto final ou nos prepara para a indispensável guerra. Desse jeito, interferimos no tempo e poluímos tudo. Nos restou explodirmos bombas para ver quem é mais forte e merece ficar com o melhor pedaço do cadáver do planeta.

(Se o discurso dos cem dias de Joe Biden nos enche de esperança pelo que promete para depois da tempestade, sabemos que a competição com Xi Jinping, que ele também anuncia com serena segurança, vai tornar o mundo irrespirável. Mesmo para quem prefere a cordialidade do presidente americano, para quem o ache menos impositivo que seu colega chinês).

A natureza aturou nossa bagunça por uns dez milhões de anos. Agora parece não estar mais a fim de segurar a onda. Aí solta, para cima de nós, os seus cachorros doidos, dos quais esse vírus é apenas uma matilha de vanguarda. Ou a gente faz um acordo com a natureza ou é melhor desistir de existir. Bobos somos nós, que confiamos mais em nossa cabeça e em nossos músculos que, nesse caso, não servem para nada, mesmo se contarmos com todos os cerca de oito bilhões de seres humanos que moram no planeta. Todos eles, juntos ou separados, são inúteis.

Por: Carlos Diegues, teatrólogo, escritor e Membro da Academia Brasileira de Letras

Foto: Divulgação

 

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