Pois é, minha Lourdinha, perdemos nosso amigo Dom Sinésio Bohn (1934-2022), aos 87 anos.

Foram dias intensos & melancólicos, Lourdinha, aquela quinta e aquela sexta-feira (dias 9 e 10 de junho) por ocasião do falecimento e sepultamento de nosso bispo emérito, minha querida.

Estive com ele várias vezes nos últimos tempos, nos últimos dias e nos seus últimos momentos de sua vida, minha Lourdinha. Naquela quinta-feira estive com ele no final da tarde e conversamos um pouco.

Sim, um gigante de nosso tempo, o Dom Sinésio, minha Lourdinha. Cumpriu a missão! “Combateu o bom combate”, como disse são Paulo.

Dom Sinésio estava sempre além do nosso tempo, minha Lourdinha. Além disso, foi sempre um grande empreendedor.

Foi incompreendido e até mesmo perseguido por alguns, mas o grande povo gostava dele, Lourdinha. As comunidades gostavam dele. Nunca deixou uma pessoa, uma família ou uma comunidade sem resposta: sempre apoiava, seja com palavras, seja com gestos concretos e solidários, quando necessário.

Tranquilo e destemido, era corajoso e fraterno. E acreditava piamente na Divina Providência. Foram muitas as iniciativas que ele colocava nas mãos de Deus e a coisa funcionava.

Por aqui ou andando pelas ruas de Roma nunca deixava de dar esmolas (ao redor do Vaticano tem muitos pedintes). Era criticado por causa disso também. Quando diziam pra ele guardar seu dinheiro, ele respondia: “Quando se morre não se leva nada”.

Um dia, Lourdinha, andando pelo interior, ele viu uma capela bem no alto do morro e disse quase distraído: “Está vendo aquela capelinha lá no alto”? Sim, bispo, respondi. “Pois ali rezei missa, fiz crismas e tomei café na casa do presidente, homem bom aquele”. Depois de um breve silêncio, ele falou: “Pois é… dou minha vida por estas comunidades”. Achei lindo aquilo, sabe.

Como não gostava de viajar sozinho, ele dava carona. Era encontrar alguém na estrada e já parava. Não raro a pessoa não estava pedindo carona, mas ele oferecia assim mesmo. Ou quando a gente estava cansado e com sono, ele também dava carona pra arrumar assunto novo. Uma figura, Lourdinha!

Quando ele estava na Comissão de Juventude e de Ecumenismo da CNBB, Lourdinha, a gente chegava de madrugada (de Gramado Xavier, Dom Feliciano ou Arvorezinha) e, enquanto eu dormia um pouco, ele arrumava a mala, tomava banho e saíamos às 5 da matina para chegar às 7 horas no aeroporto de Porto Alegre.

Dom Sinésio “adorava” uma reunião, Lourdinha. Tinha um amigo que dizia: “Quando Dom Sinésio chegar no céu vai logo convocar uma reunião com são Pedro”. A gente dava risada. Ele ria junto. Tinha um espírito livre: pouca coisa o abalava ou o constrangia. Tinha a mania de agradar os que reclamava bastante (incluindo os detratores), mas ao mesmo tempo sacava logo os problemas e os defeitos de cada um dos encrenqueiros.

Sim… maravilhosa, Lourdinha, aquela visita de Dom Sinésio ao Maranhão para participar das Bodas de Ouro (50 anos) de teu casamento com o Zeca, em 2005, amore. Inesquecível até, sabe.

Ele também gostava de rezar o terço, Lourdinha. Era a gente entrar no carro para viajar e ele já convocava: “Vamos rezar o terço”? E dali terço estrada afora… Mamma mia!

“Deo gracia” (graças e louvores a todo momento e por tudo sobre nosso amigo), Lourdinha!

Dogival Duarte, escritor e poeta

 

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