Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS

O poeta Luiz de Miranda morreu nesta sexta-feira, 29, aos 77 anos. O escritor estava internado desde 17 de julho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, sedado e com auxílio mecânico para respirar. Segundo familiares, ele foi vítima de um choque séptico e de insuficiência cardíaca congestiva.

Seus problemas de saúde tiveram início ainda em maio de 2021, quando foi internado, após sofrer uma queda em via pública da Cidade Baixa. Exames constataram que ele sofria de estenose aórtica, um estreitamento na artéria aorta, a principal do corpo. Meses mais tarde, em setembro, Miranda voltou a ser hospitalizado, após sofrer um infarto agudo. O poeta foi medicado e seu quadro permaneceu estável, apesar de apresentar cada vez maior confusão mental.

À época, familiares próximos chegaram a tentar dar assistência ao artista, mas não tiveram sucesso. Depois de alguns meses internado em uma casa para idosos em Uruguaiana, onde possuía uma prima, ele insistiu em deixar o local e retornar à Capital. Uma vez sozinho, contudo, teve dificuldade em seguir seu tratamento cardíaco e foi encontrado em julho por amigos vagando desorientado pelas ruas do Centro Histórico de Porto Alegre. Eles o levaram ao Hospital São Lucas, onde Miranda realizou exames e foi internado. Desta vez, seu quadro era irreversível.

Obra

Natural de Uruguaiana, Luiz de Miranda publicou mais de 30 livros e conquistou o Prêmio de Poesia 2001, concedido pela Academia Brasileira de Letras, por Trilogia do Azul, do Mar, da Madrugada e da Ventania (2000). Entre suas obras, estão Memorial (1973), Amor de Amar (1986), Porto Alegre (1996) e Quarteto dos Mistérios, Amor e Agonias (1999).

Entre 1968 e 1978, Miranda trabalhou por períodos curtos em diversos veículos de comunicação. Envolveu-se com política e, de 1990 a 1994, foi coordenador de Projetos Especiais do governo estadual. Em 2013, após ser despejado do apartamento onde morava por falta de pagamento, foi contratado pela Secretaria Estadual da Cultura, a pedido do então governador Tarso Genro (PT). Ele atuou como funcionário da Diretoria de Cidadania e Diversidade Cultural, realizando palestras sobre poesia pelo Estado.

“Poeta maldito”

Luiz de Miranda era considerado por pessoas próximas uma pessoa difícil. Um dos poucos amigos que seguiam mantendo contato com o poeta era Ricardo Barberena, diretor do Instituto de Cultura da PUCRS. A GZH, ele contou que o estado de saúde do amigo alternava muito e que chegou a conseguir um cardiologista para o poeta, mas, solitário e enfrentando dificuldades, os seus tratamentos eram abandonados, o que agravava o quadro.

— A situação do Miranda estava bem melancólica, mas eu buscava sempre ajudá-lo como podia. Ele era um dos últimos “poetas malditos”, que não conseguem se inserir na sociedade capitalista — relembra Barberena.

O amigo, inclusive, ajudou Miranda a lançar vários de seus trabalhos pela editora da PUCRS, além de promover eventos dedicados ao poeta. O escritor chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela parceria da instituição de ensino com o comitê organizador do prêmio. A prática é comum, visto que a Academia Sueca costuma receber nomeações vindas de membros, ex-ganhadores ou instituições universitárias ou ligadas à arte da escrita. Caso seja aceita, a indicação ainda pode ou não ser apreciada.

Em entrevista a ZH em 2013, o escritor chegou a contar o que diria se vencesse:

—  Diria que cumpri com o meu dever. Acho que sou um autor honesto, não pertenço a grupos, sempre andei sozinho. E tenho, segundo o Carlos Heitor Cony, a melhor fortuna crítica do país. Recebi elogios dos maiores pensadores do Brasil: Antonio Houaiss, Drummond, Ferreira Gullar, Nelson Werneck Sodré, para citar só quatro. Internacionalmente, o espanhol Perfecto Cuadrado disse que eu era um dos melhores poetas do mundo. Então, se fosse premiado, diria que cumpri com meu dever. Eu escrevi. Eu não fico falando que vou escrever, eu escrevo.

Queria conhecer o mundo

Luiz Carlos Goulart de Miranda nasceu em 6 de abril de 1945 e, desde muito cedo, viveu sem o contato de familiares próximos. Foi criado por um primo mais velho, Perseverando de Miranda, e ainda na juventude, deixou Uruguaiana para “conhecer o mundo”, conforme conta Gláucia de Miranda, esposa de Paulo de Miranda, primo de segundo grau que cresceu na mesma casa que o escritor.

— Assim que ele ficou maior de idade, pegou as coisas dele e foi embora para Porto Alegre. O sonho dele era conhecer o mundo e foi o que ele fez — diz Gláucia.

Gláucia, Paulo e seu irmão Carlos de Miranda eram os parentes mais próximos do autor, que não deixa filhos.

Fonte: GZH

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