Lourdinha, voltei ao Ribeirão da Ilha, nos umbrais de Florianópolis (SC). E como é bom & salutar rever o Ribeirão dessa Ilha, a antiga Desterro. Inclusive pela conversa com o mestre José Gomes e as recordações do nosso amigo Belchior, sabe.

Sim, Lourdinha, antigamente a capital catarinense se chamava Desterro. Era mais poético, claro. Isso foi lá pelos tempos de Cruz e Sousa (1861-1898), o mega poeta daqui, chamado também de Dante Negro e ou Cisne Negro: um dinossauro, ao seu modo e a seu tempo, claro.

Olha… Floripa se chamava Nossa Senhora do Desterro em alusão aos portugueses desterrados da terra de Camões (1524-1580) e banidos pra cá. Mas com a vitória dos federais em 1894, liderados pelo marechal Floriano Peixoto, então presidente da República do Brasil, o governador catarinense (Ercílio Luz) decidiu mudar o nome para Florianópolis (cidade de Floriano). Como a coisa desagradou a muitos, o nome foi empurrado “goela a baixo”, depois da “Chacina de Anhatomirim”, chamada também de “Tragédia de Desterro”, quando foram abatidos 300 combatentes civis e militares.

Pois é, Lourdinha, como te disse, vim ao Ribeirão da Ilha visitar o mestre José Gomes Neto, autor do livro “Cancioneiro Belchior”. Vim por ocasião do quinto ano de falecimento do Bel. Desejei e necessitava passar esta data ao lado de quem também foi amigo do “rapaz latino-americano” que teve muito dinheiro no banco e foi o parente mais importante. E desejava ouvir outra vez (tudo outra vez) o Bel cantando Cruz e Sousa. Uma maravilha.

Na verdade, Lourdinha, vim tomar uma “injeção” de ânimo, pois andava meio assoberbado, pesaroso & cabisbaixo, mas ainda carregando o Bel nas veias e nas coronárias, sabe.

A estada no Ribeirão da Ilha é também em vista de minha retomada do livro sobre o Bel, Lourdinha. E deu certo: já navego por estas paragens (poética) belchiorianas que nunca se acabam e não haverão de findar.

Voltei a ouvir Belchior e isso é uma maneira de mergulhar de (ponta) cabeça na jornada de revisão do livro que já anda volumoso, viu.

O pior, Lourdinha, é que aos poucos o frio chega (o doloroso inverno já mostra suas garras) e pouco produzo no frio, sabe. Acredito que vou te incomodar um pouco por aí nas quenturas salutares & deliciosas da terra de Gonçalves Dias (1823-1864), amore.

Daqui (do Ribeirão da Ilha) falamos com o Jorjão e a Teca, em São Paulo. “É dez”, como diz o Jorjão (nosso amigo Jorge Mello), cantor e compositor/parceiro do Belchior.

O mestre Gomes recordou dizeres do Belchior: quando algo não dava certo ou a coisa ficava perplexa, ele clamava: “Ai, meus sais”. Ou quando a coisa era engraçada, ele exclamava: “É demais”! Rimos muito, sabe.

O importante, Lourdinha, é que retomarei o livro do Bel, pois também já ando meio agoniado com muitos adiamentos do lançamento, sabe.

Pois é, minha amada, nunca mais sonhei com o Belchior. Acontece que andei assoberbado com outras guerras de Lepanto (1571), sabe. Sim, Lourdinha: uma Rússia também invadiu minha Ucrânia e perdi o sossego. E para trabalhar num livro a gente precisa de paz, sabe: escrever sob fogo cruzado é somente para os correspondentes de guerra, amore. E com o coração agitado, não produzo coisas benéficas.

Se depender de mim, Lourdinha, a coisa vai engrenar: vou navegar outra vez no livro sobre o Belchior, sabe.

Não… Lourdinha: falta pouco, amore: correção e algumas entrevistas que ficaram pra trás.

Olha, creio que em 3 ou até mesmo 4 meses terminarei a empreitada, viu.

Sim… o mestre Gomes está alinhavando a publicação do CD com o Belchior cantando sonetos do Cruz e Sousa. Está uma maravilha. Não vejo a hora do projeto sair do forno, sabe. E quando for lançado quero passar uns 3 séculos e meio ouvindo o Bel surfando nos poemas do magno & máximo poeta da maravilhosa antiga Desterro, o nosso Dante Negro.

Viva o Belchior, Lourdinha!

Dogival Duarte, escritor e poeta

Foto: Divulgação

 

 

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